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31/10/2006 14:04
Antonio Elizeu de Sousa comentou:
Na reportagem acima, publicada pelo Diário do Nordeste, na notícia com o título "Travessas não existem no mapa oficial", no segundo parágrafo, ao invés da afirmação: "entidades que formam o CDVHS"; o correto é "as entidades que formam a Rede de Desenvolvimento Sustentável do Grande Bom Jardim, mobilizadas pelo CDVHS.".
elizeu@cdvhs.org.br
Etnografia Rua a Rua
Clipping/DN
25/10/2006
História de Fortaleza a partir de seus bairros as belezas presentes nos cartões postais de Fortaleza estão longe de ser um fiel panorama dos diversos universos que co-habitam o extenso perímetro urbano da Capital cearense. Nem mesmo os mapas oficiais dão conta de registrar com fidelidade as inúmeras ruas, travessas, alamedas, lagoas, bairros e comunidades em constante formação e transformação. E nesta dinâmica vida urbana, quem são estas pessoas, como vivem, em que trabalham, quais são suas crenças religiosas e políticas, como moram, que histórias e memórias preservam? Respostas que não estão fielmente registradas em mapas e dados oficiais que têm servido de base para elaboração de projetos governamentais. Isso é o que está sendo constatado pelos pesquisadores do Núcleo de Estudos Pesquisa e Extensão: Gestão Pública e Desenvolvimento Urbano (GPDU), formado por professores e alunos da graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Criado em 1997, desde então o grupo vem elaborando conhecimentos sobre a cidade a partir das pesquisas nos bairros da cidade. Utilizando como metodologia o que denominam de “etnografia rua a rua”, os pesquisadores já visitaram, ao longo destes nove anos, todas as casas e moradias, estabelecimentos comerciais e religiosos, praças e campos de futebol dos bairros de Fátima, Serrinha, Grande Bom Jardim, Parangaba, Montese, Parreão, Benfica, Dias Macedo e Itaoca. Francisco Márcio Correia de Sousa, 18 anos, é morador do Mondubim e integrou, como pesquisador, o estudo do GPDU na sua comunidade, realizada entre novembro de 2005 e maio de 2006. Ele e outros jovens do bairro foram treinados por integrantes da universidade, para entender a importância da pesquisa e como aplicá-la junto aos moradores. Em campo, descobriu que a poucos quilômetros de sua casa, no Jardim Fluminense, vive uma comunidade que há mais de dez anos ocupa o campo de futebol onde ele jogava com amigos, na infância. Localizado ao lado da Escola de Ensino Fundamental Antônio Monteiro da Cruz, ao centro do terreno tem uma área verde, que forma lama em período de chuva e colabora para o mal cheiro. Com 18 famílias, o local ainda não possui rede de esgoto. Márcio também se deu conta que a única escola de Ensino Médio fica no bairro vizinho, tendo que andar quase uma hora para estudar, já que a linha de ônibus entre os bairros é precária e de difícil acesso. Já Natalya Maria Fernandes Sousa, de 17 anos, ficou impressionada com a falta de infra-estrutura do bairro. “Tem muito terreno abandonado e pouco espaço de lazer”, pontua. Além disso, ficou surpresa com as histórias que presenciou, como a de uma moradora que tem dois filhos, um com síndrome de Down, e um marido desempregado. Ela sustenta a família com trabalhos temporários. Metodologia do GPDU gera mobilização nas comunidades.
As pesquisas realizadas pelo GPDU nos bairros de Fortaleza resultam não só na atualização de dados sobre as comunidades, mas em cadernos e documentos com nome de instituições, estabelecimentos, escolas, equipamentos públicos e lideranças comunitárias, com endereços e telefones. Este material é entregue, ao final de cada pesquisa, para as lideranças. “Nosso objetivo não é retirar informações e publicar livros. A pesquisa envolve os moradores, como pesquisadores sociais justamente para estabelecer a interação e o fortalecimento dos atores da comunidade. A partir deste trabalho estamos alavancando mobilizações e a proposição de políticas públicas”, explica Geovani Jacó, atual coordenador. A socióloga Eliana Nobre, ex-aluna da Uece, percebe que a comunidade está com um diálogo diferente com o poder público. Ela, assim como outros integrantes do GPDU, já está sendo convidada para trabalhar em projetos onde aplica os conhecimentos aprendidos. Para uma das fundadoras do Núcleo, Elizabeth Aragão, o diferencial é o estabelecimento de uma metodologia que parte de uma radiografia dos bairros, conhecendo as comunidades que dão o movimento e a dinâmica de Fortaleza. “Estamos levando os alunos para fora da universidade, despertando o conhecimento deles para ambientes que eles nem observavam e gerando mobilização nestes lugares. Este era o objetivo do fundador do Núcleo, Domenico Batocchio”. Por este trabalho o GPDU já tem se tornado referência para pesquisadores e profissionais de outras áreas que precisam de dados atualizados sobre a cidade na elaboração de projetos. “Estamos construindo um conhecimento sobre a realidade”, diz Marcos Aurélio de Andrade Alves, graduando da Uece.
SERVIÇO: O Núcleo de Estudos Pesquisa e Extensão: Gestão Pública e Desenvolvimento Urbano (GPDU) da Uece fica na Avenida Luciano Carneiro, 345 - Benfica. Informações: (85) 3101.2030 e 3272.5960.
Travessas não existem no mapa oficial que no mapa oficial de Fortaleza é um espaço desabitado está uma comunidade que ocupa as travessas Ana Paula, Luiza e Ana Cristina. Nome de santas, as ruelas são habitadas por pessoas que aterraram o Lago Verde, entre as ruas Francisco Machado e Nosso Senhor do Bonfim, no Bom Jardim. Moram, ainda, 1.500 pessoas na ocupação Nova Canudos, perto da Comunidade Marrocos. Esta última, depois de luta popular, liderada pelas entidades que formam o Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), terá 157 casas, previstas no Orçamento Participativo. “E tem vereador que está anunciando para o bairro que a conquista é dele e não nossa”, denuncia Regina Márcia Ferreira Diolino, presidente da União dos Moradores do Bairro Canindezinho. Ela conta que os moradores já estão se organizando para desmentir o tal vereador. Regina integrou a pesquisa realizada no Grande Bom Jardim em parceria firmada pelo CDVHS, que sentia falta de dados concretos sobre a região, e o GPDU da Uece. Os moradores buscam melhorias para os cinco bairros da região. Entre elas maior número de ônibus e rotas adequadas. “Hoje temos cinco cadernos e cinco mapas atualizados dos bairros que nem existiam para o poder público”, conta Marileide Luz, uma das coordenadoras do CDVHS.
Comunidade Beira-Rio agora tem coleta de lixo.
A partir dos estudos do GPDU no Mondubim, a comunidade Beira-Rio, que habita o entorno do rio Maranguapinho, conquistou o direito a coleta de lixo três vezes na semana, neste trecho que faz parte do Parque São José. Para a pesquisadora Angélica Rufino Gurgel, de 17 anos, esta foi uma grande conquista. “Lá tinha tanto lixo e poluição que a gente mal agüentou chegar perto para fazer as pesquisas. Ficamos impressionados porque tem famílias morando na comunidade há mais de 16 anos. E alguns bem próximos ao rio”, conta. Segundo ela, a coleta passou a ser feita por influência de uma das alunas da Uece que integrava a pesquisa e passou a trabalhar na Prefeitura. “Agora o que vale é a consciência pessoal das pessoas em zelar pela conquista”, pondera Ângela Rufino Gurgel, de 20 anos, que também integrou a equipe de pesquisadores. De volta ao local da pesquisa, Angélica lembra de um fato que despertou sua curiosidade. A presença de um cano da Cagece utilizado como ponte pelos moradores. “Minha mãe me disse que, quando ela era pequena, o cano ficava submerso. Mas a comunidade passou a cavar o local e vender a terra, mudando a geografia do lugar”, conta. Uma das suas entrevistadas na pesquisa é Luiza Martins, a primeira a chegar no local e construir sua casa. Ela ainda alimenta o sonho de ver as ruas com calçamento e acesso facilitado à comunidade entre as ruas Costa Freire e Stênio Gomes. “Uma vez eu comprei um guarda-roupa e a loja não conseguiu entrar até a minha casa. Só tem um acesso para as ruas dos ônibus que pode ser fechado com a construção de casas nos terrenos ainda vazios”, pondera. Feliz com a melhora na qualidade de vida com a coleta de lixo, Luiza ainda está ressabiada com a Prefeitura. “Já fui na Secretaria Regional V para pedir melhor acesso de ruas à minha casa, mas quando cheguei lá tinha mais de quatro mil pedidos na minha frente”, reclama. Para Angélica ainda são muitas as reivindicações dos moradores, como escolas de Ensino Fundamental próximas e melhores condições de trabalho e renda.
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