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Identidade política e cultural do território
Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza
13/07/2003
Um dos principais efeitos produzidos não se relaciona diretamente a nenhum índice de diminuição da miséria ou da fome propriamente dita, mas decorre do que a intervenção do Centro Herbert de Souza e de outros atores sociais, especialmente a Igreja Católica via as Comunidades Eclesiais de Base da Área Pastoral do Grande Bom Jardim, conseguiram inscrever na realidade local, para a construção de uma identidade territorial e de atores sociais, contribuindo para uma nova cultura política.

Em primeiro lugar, conseguiu-se fomentar uma cultura associativista representada no fortalecimento de iniciativas comunitárias, apoio à emergência de novos grupos sociais organizados e recuperação do papel de mobilização popular das associações de moradores. Isto se revela hoje nos seguintes dados:

- mais de 100 grupos comunitários existentes no Grande Bom Jardim promovendo iniciativas comunitárias variadas nas áreas de educação, saúde, moradia, etc;

- mais de 05 novos grupos sociais emergentes incorporando na cultura comunitária o debate sobre novos temas e desafios como a economia solidária, a equidade nas relações de gênero, democratização dos meios de comunicação, preservação do meio ambiente e desenvolvimento local;

- mais de 20.000 pessoas associadas ou atendidas direta ou indiretamente pelos grupos comunitários através dos projetos sociais ou mobilizações populares, representando aproximadamente 10% da população do Grande Bom Jardim;

- média anual de 05 campanhas de mobilização popular na luta pela efetivação dos direitos econômicos, sociais, culturais, políticos e sociais, particularmente pelo direito a educação, documento civil e segurança pública;


Em segundo lugar, conseguiu-se sensibilizar e provocar uma atenção por parte dos governantes para a realidade de pobreza e injustiça social em que vivem aproximadamente 175.000 pessoas (Censo IBGE 2000). Pela primeira vez no processo histórico do Grande Bom Jardim as autoridades públicas trataram demandas sociais de forma coletiva e politizada, diminuindo o clientelismo político e o mero assistencialismo costumeiramente adotado. Isto se revela hoje nos seguintes dados:

- a demanda por acesso à escola pública foi negociada com as secretarias municipal e estadual de educação em audiências e encontros de negociação, garantindo vagas para mais de 5.000 crianças e adolescentes;

- a ausência de documento civil por parte de famílias pobres foi assegurada, após seminários, campanhas de mobilização popular e audiências com o Poder Judiciário do Estado do Ceará, Defensoria Pública e Ouvidoria do Estado, garantindo a distribuição de cerca de 1.000 registros de nascimento, estando atualmente pendentes casos especiais;

- a baixa infra-estrutura no sistema viário e o número reduzido de transportes coletivos foi superada após intensa mobilização popular que organizou passeatas, bloqueio de estradas e audiências de negociação com a Prefeitura de Fortaleza e Governo do Estado, viabilizando a ampliação e a pavimentação da avenida Osório de Paiva e vias de acesso, além do aumento da frota de ônibus que serve à população e da instalação de um sistema integrado de transporte coletivo através de terminal rodoviário;

- o baixo nível de empregabilidade da população local, em função da baixa escolaridade e qualificação profissional, vem sendo enfrentado por investimentos em programas de capacitação profissional, depois de seminário realizado no bairro com o Secretário Estadual de Trabalho e Ação Social e sua equipe técnica, qualificando em média 500 trabalhadores e trabalhadoras anualmente;


Estes dados relacionados demonstram um novo patamar político, organizacional e cultural do Grande Bom Jardim, que superou seu isolamento (pela própria condição de ser um bairro marginalizado) pela sua interlocução mais qualificada com o governo e a sociedade civil organizada. Estes efeitos revelam a construção de uma identidade política e territorial dos pobres, transformando-os em sujeitos capazes de promover uma melhor qualidade de vida. Porém, o desafio de transformar as pequenas vitórias garantidas neste processo em um novo patamar de organização e de mudanças mais profundas em sua condição social, econômica e política num futuro próximo ainda representa um limite a ser superado.
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