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Moradores dizem o que é necessário para desenvolver o bairro

09/08/2004
Confira na íntegra os depoimentos dos moradores do Grande Bom Jardim sobre o que deve ser feito para desenvolver a região. Parte desses depoimentos pode ser vista no jornal Viva a Cidade, publicação feita pelo CDVHS junto com os moradores da região.
  • MARIA GORETE PAULA DOS SANTOS, professora da escola municipal de ensino fundamental Alegria Cultural – moradora do Jardim Nazaré “Eu acredito que primeiramente deve ter uma organização de pessoas. Sem a organização de diversos movimentos, não se desenvolve o bairro. Quando eu entrei na rede DLIS eu entrei sabendo que ia contribuir, que a minha contribuição podia servir para o desenvolvimento do bairro. Como eu trabalho numa escola que eu acredito que precisa trabalhar com os alunos pra esse desenvolvimento, primeiramente tem que surgir do professor essa vontade pra criar nos alunos também uma vontade de desenvolver. Eu acredito muito numa organização, grupo de pessoas, para que a gente consiga um melhor desenvolvimento do nosso bairro”.

  • ANTONIO AGUIAR MACHADO, comerciante – do Jardim Jatobá “A princípio, tirar as crianças das ruas, criar mais creches e colégios pra poder evoluir mais o bairro. Emprego também que não tem no bairro. Acharia bom também ver esse lado aqui do Jardim Jatobá, Siqueira, Parque São João, desenvolvesse uma indústria pra dar mais emprego ao pessoal, que o pessoal sai pra trabalhar do meio dia pra tarde chega e não faz nada... Aí eu queria ver isso aí pra botar umas indústrias, uns comércios porque quanto mais comércio vai gerar mais emprego. E queria assim também que tivesse creche porque às vezes o pai não pode trabalhar nem a mãe porque não têm onde bote as crianças, isso é muito difícil. O ponto básico mesmo é olhar esse lado das crianças, ver, fazer mais creches, e também negocia de indústria vir pra cá pro bairro porque só fazem indústria em Maracanaú. Aqui num tem uma indústria, uma fábrica de confecção, não tem nada. O desemprego nessa área aqui do Jatobá é grande, num desenvolve aqui, é um bairro totalmente parado”.

  • BRUNO FELIPE, estudante – do Canindezinho “Além de uma visão maior da população em si, a desalienação, as pessoas têm que aprender a saber o que querer, não adianta a prefeitura olhar, todo mundo fazer tudo pela gente e as pessoas da comunidade não aceitarem aquilo, não mudarem sua realidade. Eu acho que só vai mudar alguma coisa aqui quando a população tomar uma atitude, entrar em ação. Só a ação e a união podem mudar alguma coisa”.

  • CLARITA RODRIGUES, comercinate - do Canindezinho “Eu acho que é a união dos moradores. Tem que ter todo mundo unido, participando e tudo, e um político bom. Eu acho que a gente tem que se unir todos pra crescer de um modo geral’.

  • VANESSA VIANA, estudante – da Granja Lisboa “É preciso mais atenção das autoridades porque o nosso bairro também faz parte de Fortaleza, nós precisamos de muita atenção. A gente não tem praça, a nossa igreja tá precisando muito da atenção dos políticos, das autoridades. Nós não temos lazer, nós não temos cursos profissionalizantes, enfim, a gente não tem praticamente nada nesse bairro. O que a gente precisa mesmo é da força desses políticos, dessas autoridades que venham nos ajudar financeiramente, que façam eventos, que promovam cursos aqui, que a gente precisa muito, a gente não tem nada disso”.

  • PROFESSORA ENEDITE MADEIRA, coordenadora de gestão da escola de ensino fundamental São Francisco de Assis – da Granja Portugal “Desde que a gente chegou na escola em 93, que a nossa preocupação é de ver não só dentro da escola e o social, nossa preocupação é de acolher esses alunos que já são tão carentes, de uma maneira que compense um pouco o social que cerca eles, que estão inseridos. E um dos pontos que se vê necessário nessa mudança, além de envolvê-los em atividades educativas, sem dúvida alguma são ações coletivas pra essa melhora, ações coletivas de entidades, de governo, de tudo que for setor que veja o lado social”.

  • PROFESSOR CHRISNAMURT, professor da escola de ensino fundamental São Francisco de Assis – da Granja Portugal “Nesse tempo que nós estamos aqui trabalhando, já decorreram 10 anos, nós percebemos que o espaço escolar, dentro do muro da escola, nós sentimos certos progressos com o desenvolvimento dos alunos, o convívio, o comportamento, mas infelizmente a parte externa que compromete o trabalho interno da escola. Nesses 10 anos nós não temos nenhuma melhora significativa. Eu costumo dizer, em reuniões que nós temos por aí afora, que aqui, os nossos alunos, um bom pra namorar, pra conversar com um amigo não têm. Infelizmente faltam espaços para que os jovens se integrem, um espaço saudável, para que eles desenvolvam uma discussão sadia. Outra questão séria: em algumas vezes que vamos visitar alguns alunos com problema de freqüência, ou disciplina, ou porque a família mal acompanha essa criança na escola, a gente percebe a grande carência social e econômica e até de infra-estrutura do bairro porque são casas sem saneamento básico, condições mínimas, não temos posto de saúde, uma delegacia pra comunicar um problema mais sério a gente tem que se deslocar pra outro bairro. Então é uma carência bastante sentida, mas a escola tem tentado, dentro das suas condições, motivar os alunos, mas às vezes a gente se depara com situações que até nos deixam cansados dada essa falta de apoio à família no bairro. Seja emprego, seja acompanhamento familiar mais próximo, de saúde de lazer, que é muito importante pra gente. Entao eles ficam aí, ao sair da escola, praticamente sem rumo. Eles passam 4 horas conosco, 20h com a família, mas o que é que eles tem lá? Então já houve tempo suficiente para as autoridades detectarem esse problema”.

  • IRMÃ IVONETE FÉLIX, do Imaculado Coração de Maria – Granja Portugal ‘É preciso um planejamento estratégico que contemple as políticas públicas quanto à educação, saúde, principalmente a saúde do bairro, saneamento básico, acompanhamento educacional, um acompanhamento sistemático da rede de educação escolar. É preciso também uma organização trazendo melhoria para o bairro, contemplando feiras comunitárias, que contemple os trabalhos feitos pelas próprias pessoas do bairro e também melhoria do preço, valorização do preço no comércio, mas organizado, um acompanhamento sistemático das redes responsáveis por isso”.

  • PASTOR FERREIRA, da igreja batista Nova Aliança “Eu já estou há 23 anos aqui dentro da comunidade. Nós temos acompanhado o crescimento passo a passo dessa comunidade, mas um dos requisitos fundamentais para que uma comunidade, para que um bairro cresça, é primeiro uma integração social onde a saúde, a educação, as atitudes que nós devemos tomar contra a violência, com certeza são os requisitos fundamentais para que o bairro tenha um desenvolvimento dentro da área da cultura, da religião e dos ensinamentos fundamentais para que uma criança possa crescer dentro de um padrão de vida em que mais tarde ele possa ser um bom cidadão da terra, mas também um bom cidadão celestial, que é o nosso lado religioso que nós estamos trabalhando aqui há mais de 23 anos. Temos um projeto que nós trabalhamos dentro da área de desenvolvimento pessoal e, graças a Deus, Deus tem abençoado de uma maneira bem peculiar, hoje nós contamos com a média de mais de mil crianças em que quase diariamente eles estão com a gente, fazendo cursos, treinamentos, tendo alimentação e o ensino fundamental. Louvamos a Deus porque fazemos parte dessa comunidade e ela tem crescido, se desenvolvido, e a gente tem acompanhado a cada dia os passos do Grande Bom Jardim”.
  • PADRE DANIEL MORAIS DE SOUSA, vigário paroquial – do Santa Cecília “Vocês observam que as nossas praças são muito esquisitas, elas não têm um espaço público de lazer. Outra coisa é a carência cultural, a gente percebe muito isso e as pessoas têm a necessidade de busca e tudo é difícil, você tem que ir pra fora, e você vê que tem grupos de adolescentes que se destacam daqui para a Edisca, aquela escola de arte e dança, de ação social para adolescentes que fica fora daqui do bairro e até distante da Água Fria, se destacam daqui pra lá. E muitas coisas devem ser transformadas assim para as pessoas terem esse espaço [de lazer] e compreenderem, agora precisa dessa organização. Se não tem essa organização, por parte da população que leve a uma ação social de libertação, a gente pode dizer assim, que quando se fala de uma ação social de libertação já se fala na questão eclesial, da Igreja, que a igreja tem que se envolver nisso, porque o projeto de Deus não começa no alheio ou no aéreo ou nas nuvens. Ela tem que começar numa ação conjunta daqui mesmo, partindo da terra. Se não tem essa organização, o que eles [os jovens] vão fazer? Vão se organizar em gangues, em grupos de quadrilhas, a questão dos assaltos, tem muito dessas coisas aqui. Um dia desses aqui, às cinco horas da tarde, praticamente na porta de cassa, levaram bicicleta, e isso sempre acontece aqui na praça, a gente tem observado isso. Então parece-me que a gente tem que começar mesmo da base, de olhar essas coisinhas, ver como é que a gente pode aos poucos, e também com paciência. Se a gente for querer mudar as coisas da noite para o dia a gente não consegue. Por exemplo, chega gente aqui, a gente vai conversando, não é simplesmente pedir, a gente tem que ver o que é que ta precisando, se a gente pode visitar, como é que é lá, enfim. Eu não sei se isso responde a pergunta. O desafio é esse: uma organização conjunta, uma organização social que abranja todos os ângulos aqui do Bom Jardim, porque é violência, falta de lazer, espaço de lazer, carência cultural, gente que vem do interior e não tem onde ficar e fica arranjado por aí em qualquer lugar, qualquer barraco. A gente vê a ocupação que tem ali no Marrocos, e tem mais ocupações surgindo aí por trás. E tem mais, o Grande Bom Jardim não é so aqui simplesmente o Santa Cecília, o Santo Amaro, o Bom Jardim, o Grande Bom Jardim ainda vai até ali parte da Jurema, então tem muita coisa pra se transformar aqui né? Agora o que eu tenho percebido é que as poucas organizações que existem aqui, inclusive a gente diz que tem poucas mas são muitas em relação aos outros bairros, o próprio CDV, uma entidade que trabalha com isso, assim dos direitos humanos, mas tem algumas que não se unem e também tem os políticos que não se unem. Você vê os políticos brigando pela sua parte, outro pelo seu partido pelo seu não sei o que, então cada qual fica na sua posição e falta unidade, se não tem unidade política, não tem unidade religiosa eclesial. O desafio também é o desafio da unidade, buscar um pouco de unidade. Aí você vê que em todo canto nasce uma igreja, um terreiro de macumba, mas cada qual defende o seu problema “é cada um por si e Deus contra todos”.
  • JOÃO CAUBI, comerciante e proprietário do mercadinho Ana Risorlange – do Bom Jardim “Segurança. A violência tá muito grande, tem poucos policiais na área, as viaturas tudo quebrada. O governo não dá assistência à polícia em nada. Todos os comerciantes trabalham com medo e assustados”.
  • EDNARDO FREITAS, diretor do grupo CEAC, Companhia Encenart de Arte e Cultura – Granja Portugal “O principal é a informação chegar até esses grupos [artísticos] porque depois de formados eles têm como desenvolver atividades e uma outra questão é o apoio que esses grupos têm que ter a nível de acompanhamento. O desenvolvimento só vai acontecer se houver informação e esse apoio a nível de governo. Acredito que é o principal pra que os grupos possam se desenvolver e, conseqüentemente, para a cultura do bairro ser difundida é o conhecimento e o apoio”.
  • MARCELO SENA, agente administrativo e ator do grupo CEAC Companhia Encenart de Arte e Cultura – Granja Portugal “Quanto à questão cultual a gente vê que ainda falta apoio. A gente como grupo, encontra muitas dificuldades tanto na comunidade apoiar os nossos trabalhos em termos de não ter uma cultura já engajada e também arranjar patrocínio como o apoio de associações, esse tipo de coisa. A gente tem como exemplo a Paixão de Cristo que todo ano a gente tem e a dificuldade da comunidade se engajar nesse trabalho é enorme principalmente quando falamos em dinheiro”.
  • RIVA DARVIO DE SOUSA, comerciante – da Granja Portugal “Precisa de maternidade que não tem, delegacia, agencia de banco que nós não temos porque aqui não existe nada. Segurança que nós não temos também, a gente vive trancado. De madrugada ninguém quase não dorme com medo do banditismo aqui na rua, é pedrada, tiro... Estas duas semanas foi direto isso aqui”.
  • PROFESSOR GUIMARÃES, da escola Creusa do Carmo “O primeiro passo é que toda a comunidade possa trabalhar em conjunto, unida. O que nós observamos no nosso bairro é que em cada esquina tem uma comunidade, associações que costumam lotear o nosso bairro e alugá-lo durante quatro anos. Infelizmente nós temos isso como nós temos eleições de 2 em 2 anos, os espaços periféricos são alugados de 2 em 2 anos. Isso é a melhor maneira que alguns governantes criaram para fazer com que um bairro não cresça. Ao passo que nós sabemos que bairros que têm lideranças comunitárias que atuam, o bairro vem crescendo. Mesmo o Pirambu, que agora é Pirambu 1 e 2, tem muita coisa, muitas atividades lá e o Pirambu mudou muito de uns anos pra cá porque tem trabalhos comunitários lá porque tem associações que nasceram, foram criadas parece que das entranhas da comunidade. Ao passo que, no caso aqui da nossa Granja Portugal especificamente nós temos que em cada esquina você encontra uma associação, em cada quarteirão você encontra uma igreja, então ele ficou muito loteado e isso só vem a atrapalhar. Parece que, na visão de alguns, parece ser muito democrático mas não é. Seria muito democrático se essas pessoas trabalhassem realmente a serviço do bairro. Não estamos negando também os profissionais maravilhosos que tem aqui no bairro. Nós só estamos falando do que é feito para que o bairro não cresça, continue como está a depender de 2 em 2 anos de esmolas dos políticos. Isso aí eu vejo como um obstáculo para o não crescimento, conseqüentemente o crescimento seria se esse quadro se revertesse, que essas lideranças realmente olhassem pela transformação, pela melhoria de um bairro como esse. Principalmente se tratando de um bairro como a Granja Portugal, onde tem, segundo dados, o maior eleitorado, porque muita gente acredita que o conj. Ceará tem um grande eleitorado. Tem muitos colégios, onde as pessoas que saem dos bairros, chamados anexos, que se dirigem até o conj. Ceará para poder votar. Na verdade esses eleitores se encontram nesses chamados bairro anexos, que há algum tempo atrás quando se falava em Granja Portugal, eu falava que Granja Portugal não era um bairro, que era um anexo do Conj. Ceará e que não passava de um amontoado de quarteirões. Onde cada quarteirão tinha um dono, que era uma liderança que muitas vezes só olhava o benefício próprio. Em sala de aula eu questiono muito esse trabalho, nas 7a. e 8a. nos saímos entrevistando os candidatos possíveis aqui dentro do bairro com perguntas como “De onde vem o dinheiro para as campanhas?”, “Qual o trabalho que essa liderança tem em benefício da Granja Portugal?”, “Como surgiu o interesse em sair candidato?” porque nós sabemos que um candidato não é pro bairro mas pra Fortaleza, é do município, mas mesmo assim quando se sai até 80 candidatos de bairros periféricos como o Conj. Ceará e a Granja Portugal é preocupante”.
  • SANDRA EVELINE, enfermeira do posta Alarico Leite– do Parque São João, Siqueira “É importante a participação popular, a participação comunitária, a conscientização das pessoas, dos moradores, dos seus direitos e deveres como cidadãos. Não há formação de bairro bom, se as pessoas assim não decidirem não optarem pelo que é bom. Não é só Ter ruas e prédios bons, mas ter a participação verdadeira genuína e legitima, com representantes legitimados pelos seus eleitores, decidindo se é a educação que é a prioridade, se é as escolas, em que locais, se é acesso melhor às populações. Os postos de saúde funcionam em acessos melhores próximos às comunidades e com as condições mínimas. O transporte é importante para que facilite o acesso”.
  • LUIS DA SILVA BARROS, presidente da Associação Granja Lisboa Atlético Clube “Eu queria um apoio de gente para comandar o direito sobre as crianças. Falta material, falta merenda. Precisa de manutenção porque as crianças são pobres. Se tivesse uma merenda, essas crianças travam com mais gosto, mais vontade. Nos temos aqui mais de 150 alunos cadastrados. Eu trabalho há muitos anos com esportes graças a Deus, mas falta esse apoio pros meninos”.
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